E se a pessoa tóxica for eu?
- Jonatas Oliveira
- 5 de jan.
- 3 min de leitura
E se a pessoa tóxica for eu?
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Tornou-se comum falarmos que alguém pode ser tóxico, ou que podemos estar envolvidos em um relacionamento tóxico. No entanto, quando dizemos algo sobre o outro ou sobre a relação, acabamos deslocando o foco do sofrimento para fora de nós mesmos.
Uma dinâmica como essa, de relacionamento percebido ou sentido como tóxico, geralmente é bem complexa. Isso porque os relacionamentos acabam se tornando adoecidos mais pelos padrões relacionais pelos quais são construídos do que pelo "tipo" de pessoa que está naquela relação.
Quando nos perguntamos: "E se a pessoa tóxica dessa relação for eu?", não estamos em busca de um culpado, mas parece ser a consciência da responsabilidade afetiva nos convocando.
Nesse sentido, podemos perceber que qualquer pessoa, por mais bem-intencionada que esteja em um relacionamento, pode, sim, produzir sofrimento naquele vínculo. E isso acontece porque, em alguns casos, os contextos e as vivências pelas quais passamos costumam ser reproduzidos de maneira quase que automática.
E, até aquilo que para o outro é considerado ruim, sob a nossa perspectiva é percebido como natural, ou como a forma que conhecemos de nos conectar.

Ninguém entra em um "relacionamento funcional" porque não dá pra adivinhar simplesmente que ele será bom e pronto! Ninguém torna uma relação disfuncional porque não se faz uma relação sozinho (dadas as devidas proporções).
A relação acontece de modo disfuncional quando deixa de ser um espaço seguro, quando os indivíduos não conseguem mais se validar e nem apoiar o crescimento um do outro.

Existem, por exemplo, relações em que uma pessoa se sente confortável, mas a outra não. Existem modelos de relacionamentos em que uma pessoa se sente silenciada e a outra nem percebe. Tem, ainda, aqueles relacionamentos em que todos estão exaustos, pois estão constantemente vigilantes, e se sentem sem saída, sem nem saber por quê.
Ao observar comportamentos que são excessivamente controladores ou extremamente passivos, críticas que não são explícitas, mas estão ali diariamente, a necessidade insaciável de admiração, validação e confirmação... Tudo isso não acontece da noite para o dia e nem se sustenta em qualquer tipo de relacionamento.
É preciso que pessoas com necessidades específicas, histórico de vida específico e forma de lidar com as suas inseguranças – ou seja, pessoas muito específicas – criem relacionamentos muito específicos. E alguns desses relacionamentos são chamados de "tóxicos".
É aquela combinação daquele “jeito”, e que, naquele momento, não está funcionando bem. O problema não é só que isso aconteça, mas o fato de as pessoas desse relacionamento não terem consciência sobre como estão agindo.

Então, qualquer um de nós pode ser a “pessoa tóxica” da relação quando não temos consciência de que as nossas atitudes representam agressividade e provocação para o outro.
Quando nos questionamos "Será que eu sou a pessoa tóxica desta relação?", esse também é um movimento de maturidade emocional e que foge à regra de pensar apenas que a outra pessoa tem defeitos e somente eu tenho as minhas dores.
Nesse sentido, podemos começar a avaliar como as nossas formas de amar estão permitindo a existência do outro e como as nossas exigências estão afetando o outro ao longo do tempo.
Qualquer relacionamento saudável tem por princípio ser livre de tensões e abre espaço para o diálogo, a autorreflexão e os ajustes, que sempre aparecerão.
Quando a outra pessoa se sente autorizada a existir como ela é, sem precisar performar para mim. Então, eu estou dando espaço para que essa relação seja saudável e sustentável. Do contrário, posso estar sendo, de fato, a pessoa tóxica. Então, preciso rever as minhas ações.
Precisamos nos avaliar com honestidade continuamente.

E para não cair em uma dinâmica adoecedora, é preciso não absolver os comportamentos nocivos, mas olhar para eles, falar sobre eles e buscar a transformação. Porque aquilo que nós estamos chamando de toxicidade pode ser outra coisa: as nossas dores que não foram elaboradas.









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